Mauá e Região
Publicado às 10h41 — 16 de março de 2017
Primeiro campo de futebol do Brasil abandonado

Mato alto, buracos, teias de aranha, arquibancadas e vestiários destruídos, este é cenário do local

Por Vinicius Pinheiro | Portal Mauá e Região
campo

Mato quase impossibilita entrada no campo. Foto: Andréa Iseki

Apontado por historiadores como o primeiro gramado para o futebol do Brasil, o campo de Paranapiacaba, em Santo André, foi esquecido pelo poder público. A sensação ao entrar no local é de estar fazendo uma trilha, por conta do mato alto que tomou conta de dentro das quatro linhas. Arquibancada com teias de aranha, chão esburacado e vestiário quebrado representam o abandono que pairou pelo histórico campinho.

Os jogos amadores não ocorrem no campo desde 2010 e agora, por conta do mato alto, nem os jovens da Vila podem fazer do local um espaço de lazer. “Faz sete anos que não acontecem mais jogos lá”, lamentou o morador Paulo César Ranger, mais conhecido como Pururuca, 51 anos, que jogou no time do clube do União Lyra Serrano. “No começo do mês, falei com um secretário da Prefeitura e reclamei porque estava crescendo árvore lá dentro”, disse.

Corte no coração

A situação do campo ficou assim após a colocação de um palco para o Festival de Inverno, há sete anos, que demandou a entrada de caminhões e tratores, o que causou buracos no gramado. “É um corte no coração. Meus pais jogaram bola lá, meus irmãos, eu poderia levar meus filhos, mas isso não vai acontecer e na Vila não tem outro campo. A quadra que tinha, aproveitaram e fizeram uma escola”, afirmou.

Mesmo sem jogos com o time amador da vila, até 2015 os moradores ainda utilizavam o campo para jogar uma partidinha após o anual Encontro dos Amigos. O local também era utilizado para crianças brincarem de diversas formas. No último fim de ano, o momento de lazer já não foi mais possível, conforme contou o morador e receptivo turístico Felipe Nazário, 23 anos. “Além do mato alto, tem buraco nesse campo que cabe até um carro”, exclamou.

Chuveiros quebrados

Antes do incidente no Festival de Inverno, os próprios moradores faziam a manutenção do campo, conforme contou o ex-diretor do time da Vila, Antônio Fernandes, 63 anos, que também é comerciante. “Eu tinha até a máquina pra roçar aqui, mas o pessoal da Prefeitura falou que a chave do campo não poderia mais ficar com morador e acabou que vinha gente de fora, arrebentaram as portas e quebraram os chuveiros do vestiário”, lamentou.

Em nota, a Prefeitura de Santo André informou que “a roçagem do campo de futebol está prevista para 10 dias dependendo das condições climáticas”. A Vila também passará por um serviço de roçagem que, conforme a Prefeitura, será o terceiro ciclo desde o início do ano. “Estamos elaborando um mapa de roçagem da vila para dinamizar essa ação. Entre as ações da nova gestão, está sendo elaborando plano paisagístico de Paranapiacaba, previsto na Lei da ZEIPP (Zona Especial de Interesse no Patrimônio de Paranapiacaba) há quase 10 anos”, diz trecho da nota.

REFORMA

A Vila de Paranapiacaba foi contemplada com recursos do PAC 2 (Programa de Aceleração do Crescimento), por meio do PAC Cidades Históricas, recebendo R$ 42,42 milhões para restauros. Entre as obras, estava prevista a reforma do campo, com R$2,2 milhões destinados para o local.

Sobre as intervenções previstas, a Prefeitura afirmou que o Projeto de Restauro do Campo foi elaborado e está em análise no IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) Brasília. “Estão previstas intervenções como drenagem, gramado novo, restauro da arquibancada existente, nova arquibancada de pedras aproveitando um talude natural e vestiário. Com a aprovação, o objetivo é realizar a licitação e iniciar as obras ainda esse ano”, informou, por meio de nota.

HISTÓRIA

O campo de futebol mais antigo do País foi inaugurado em 1894. Nas paredes do Bar do Campo, de Antônio Fernandes, é possível ver diversas fotos, inclusive em preto e branco, que contam histórias que passaram pelo antigo gramado. Além disso, o comerciante exibe troféus do time do Clube União Lyra Serrano, por diversos campeonatos disputados no local, como as “Olimpíadas Ferroviárias”.

O time é registrado em cartório e federado, conforme contou Fernandes. “Já saíram grandes talentos daqui, um inclusive foi jogar fora do país”, afirmou. “O último jogo do time aqui no campo foi na gestão Aidan ainda”, disse.

Considerado o pai do futebol, Charles Miller, esteve no campo da Vila, pois era funcionário da São Paulo Railway, empresa ferroviária trazida pelos ingleses, que construíram as casas do vilarejo. “Meu pai era caseiro do campo. Eu sou ferroviário e joguei lá, assim como outros ferroviários também. O campo foi construído para os trabalhadores jogarem futebol nas horas de lazer”, contou o morador Paulo César Ranger.

Por Jessica Marques – ABCD Maior

Outros Destaques

Colunistas

Entrevista exclusiva com o Prof. Dr. Saulo César Paulino e Silva

Colunistas

Cadê você?, de Tainá Roberta

Colunistas

Prosa de peão, de Jerônimo de Almeida Neto

Siga-nos
Destaques
República Terapêutica infanto-juvenil faz mais um ano
Mauá terá clube de leitura Leia Mulheres em Outubro
Atila repassa recursos à APASMA
Revista
Jornal