Mauá
Publicado às 11h10 — 29 de maio de 2017
Região reforça auxilio a moradores de rua
Por Vinicius Pinheiro | Portal Mauá e Região

moradores

Com a chegada do inverno, em junho, período mais complicado especialmente para quem não tem um teto para viver, moradores de rua precisam se apegar à solidariedade das pessoas e às ações que visam minimizar o sofrimento deles, como campanhas de agasalho promovidas pelo poder público – no Grande ABC, Santo André, São Caetano, Diadema e Ribeirão Pires já começaram a recolher peças doadas. Estima-se que 585 pessoas sejam moradoras de rua somente em Santo André, São Bernardo e São Caetano.

“Alguns perderam a família, outros a dignidade. Uns se afundam na bebida, outros nas drogas.” A frase, do jovem Anderson Felipe Cassiano Menezes, 24 anos, exemplifica o sentimento de quem vive desta forma, mas mantém os sonhos. Entre truques de malabares, ele contou um pouco de sua história de vida à equipe de reportagem do Diário.

Logo aos 13 anos, o jovem entrou em depressão e começou a beber e a fumar maconha depois de perder o irmão e a prima. De lá para cá, já utilizou também ecstasy e LSD, mas atualmente se contenta com bebida alcoólica. Foi parar na rua em definitivo há dois anos – após seguidas brigas com a mãe. Hoje, vive com mais dez pessoas em área próxima ao Terminal Leste de Santo André.

“O frio atrapalha, mas graças a Deus pessoas levam cobertores para a gente se aquecer, além de barraca e alimentação”, conta. “Apenas quero ser feliz. Vejo o sofrimento, sinto até um vazio dentro do peito, pois tenho uma filha de 2 anos e ex-mulher, mas não tenho condições de ajudá-las”, lamenta. “Muitas vezes somos discriminados. Por morar na rua, as pessoas acham que não somos gente. Somos pessoas humildes e temos sofrimentos por conta de vários problemas”, completa.

Seu desejo é ser chef de cozinha. Ele promete correr atrás da profissão para voltar à casa da mãe, em Santo André. O olhar direcionado às três bolas de tênis mostrava a atenção à atual alternativa para ganhar uns trocados nas ruas. Na mochila, parcialmente rasgada, carrega troca de roupa e boné desgastado.“Faço truque no farol, tem gente que olha e nos destrata. A gente não faz pelo dinheiro, faz pela arte, para levar sorriso às pessoas estressadas no farol”, conta.

Os traços com a caneta no papel, as tatuagens pelo corpo e as cicatrizes nas mãos formam a timidez e a dificuldade de expressão de Francieldo da Silva Santana, 27. O homem, com diversas marcas, era apenas um garoto de 9 anos quando morava em Pernambuco e viu o pai falecer e a mãe ir embora de casa. Após o episódio, veio para a casa de uma tia no Grande ABC e, após desavenças, foi às ruas, local onde vive há oito anos.

Tanto Francieldo quanto Anderson frequentam a Casa Amarela, em Santo André, espaço de convivência e de prestação de serviços para quem procura o local por livre e espontânea vontade. “Não uso mais droga há cinco meses, peguei nojo. Você paga para ficar com medo, sabe que o bagulho é errado, persistir é burrice. Tomo umas pingas aí, mas droga não quero nem saber”, relata Francieldo.

As cicatrizes nas mãos são fruto de briga com a mulher, quando tentou impedí-la de comprar droga. Ele diz ter segurado a faca com a mão, mas em troca ganhou fissuras profundas no membro que pode mudar a atual situação em que vive e lhe proporcionar futuro. “Sou desenhista e quadrinista. Tem uns espalhados por aí. Faço fotos e desenho tatuagens. Desenho é comigo mesmo! É a minha área, mas já trabalhei também como pintor e pedreiro.”

Com lágrimas nos olhos, poucas placas de papelão que servem como cobertor, a carteira profissional e uma Bíblia, o pernambucano José Severino de Souza, 32, tem a esperança de voltar a morar com os filhos, na Capital. Ele chegou à região em 2002 para morar com a esposa. Está separado há dois anos, e há dois meses faz da saída da Estação Mauá da CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos) seu dormitório. Após brigar com a família, decidiu se afastar da mãe e dos filhos Guilherme, 7, e Gustavo, 6. “Minha vida virou do avesso, estou pagando pelos meus erros na rua. Ficar longe dos meus filhos é difícil.”

Fora do uso de álcool e da cocaína há 15 dias, o pernambucano deseja voltar a trabalhar como estoquista de mercado. Os pertences foram diminuídos dias atrás, pois, enquanto dormia, teve o cobertor levado. “Carrego um saquinho de latinhas e uns pães que ganho no café da estação. O pessoal da Igreja me dá sopa e marmitex, aí consigo me virar”, conta José, que no dia em que foi abordado pela equipe de reportagem do Diário havia conseguido dinheiro para pegar o trem e visitar os filhos.

Especialistas destacam possíveis soluções
Grandes cidades têm poder de polarização considerável, levando-se em conta a atração de população para seu entorno por conta de atividades econômicas. Segundo o coordenador do Núcleo de Formação Cidadã da Universidade Metodista de São Paulo, Oswaldo de Oliveira Santos Júnior, a maior quantidade de moradores de rua do Grande ABC se deve a trabalhadores desempregados, fruto das crises cíclicas e constantes do sistema capitalista.

Além disso, a falta de condições psicológicas para lidar com o problema das drogas é obstáculo enfrentado na relação do usuário com o assunto. Além disso, a família se coloca como “codependente” da situação por também ser atingida pela utilização de substâncias ilícitas. “A primeira alternativa é pensar políticas públicas integradas nas áreas de Saúde, Emprego e Renda, Habitação e Educação, visando atender a esta questão, a este fenômeno”, aponta Oswaldo.

Para o professor João Clemente de Souza, sociólogo do Mackenzie, o entendimento do assunto depende de síntese de múltiplos fatores. Ao abordar a temática, o especialista ressaltou as condições econômicas presentes na sociedade atualmente. “Vivemos com uma nova realidade econômica. Com a situação do aluguel, muito caro em comparação ao salário que ganham, essas pessoas não conseguem bancar isso. Somando ao desemprego, conseguem menos ainda”, pontua.

A situação socialmente crítica em relação à família resulta na expulsão ou saída rápida de casa, devido à ausência de apoio quando o problema deve ser enfrentado.

“Não temos para essa situação uma política preventiva que chegue antes de a pessoa ir à rua. Teríamos de pegar a pessoa no portão de casa, no espaço que está convivendo”, explica. “Esse é um movimento de difícil retorno. Por outro lado, não se tem sistema político organizado para potencializar as pessoas e reinventar a sua vida por meio de políticas públicas eficientes”, completa.
Municípios informam pontos de doação
Em Santo André, a campanha do agasalho, iniciada dia 19, será estendida até 30 de junho. O objetivo é atingir volume de doação que permita beneficiar o maior número de instituições sociais do município. Os pontos de doação estão espalhados em locais como Acisa (Associação Comercial e Industrial de Santo André), Fundação ABC/Faculdade de Medicina, Prefeitura, shoppings e empresas parceiras.

Em Diadema, cuja campanha do agasalho começou no sábado, a doação pode ser feita até 30 de junho em diversos postos de arrecadação, como a Câmara Municipal, UBSs, centros culturais da cidade e escolas municipais, além de empresas parceiras do projeto. A expectativa de arrecadação é de 66 mil peças, mesma quantidade do ano passado.

Ribeirão Pires lançou nesta semana a Campanha do Agasalhinho, promovida pelo Fundo Social de Solidariedade em parceria com a Secretaria de Saúde e Higiene. A iniciativa pretende beneficiar famílias de crianças em situação de vulnerabilidade social. A edição deste ano, que será realizada no período de 25 de maio a 30 de julho, terá mais de 20 pontos de coleta distribuídos em prédios públicos, unidades de saúde e comércios da cidade.

A Campanha do Agasalho 2017 do Fundo Social de Solidariedade de São Caetano começa oficialmente hoje.

Até o fechamento desta edição, as prefeituras de São Bernardo, Mauá e Rio Grande da Serra não informaram a respeito da programação envolvendo campanhas do agasalho para este ano.

Por Matheus Angioleto – Especial para o Diário

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