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Publicado às 13h21 — 27 de novembro de 2015
Precisamos resgatar a memória do Parque da Gruta Santa Luzia

40 anos após a inauguração do Parque da Gruta Santa Luzia pouco ou quase nada tem sido feito pela manutenção desse patrimônio histórico e natural

Por Johnny Bernardo | Portal Mauá e Região

Gruta Santa

Primeiro parque municipal (foi inaugurado em 1975), o Parque Ecológico da Gruta Santa Luzia é um marco ambiental e histórico da cidade outrora chamada pelos indígenas de Cassaquera (“cercados velhos”). É do prefeito Amaury Fioravanti o projeto de abertura de um parque no Jardim Itapeva, em uma área anteriormente ocupada por padres Beneditinos e, posteriormente, pela Pedreira Santa Luzia. Há poucas informações sobre as atividades desenvolvidas pelos padres, mas sabe-se da influência dos Beneditinos na configuração religiosa de Mauá e do ABCD como um todo. A réplica da imagem de Santa Luzia, presente na gruta, é parte desta influência exercida sobre os trabalhadores da Pedreira Santa Luzia. O Parque da Gruta é, portanto, uma testemunha histórica do desenvolvimento de Mauá e um elo com um passado distante.

Mauá tinha apenas 20 anos de história (pós-emancipação) e havia pouquíssimos moradores nas imediações do Jardim Itapeva quando o então prefeito Amaury Fioravanti concebeu a ideia de transformação da área ocupada pela Pedreira Santa Luzia em parque. Uma atitude ousada para a época. Primeiro porque Mauá não tinha nenhuma opção de lazer. Segundo porque Fioravanti deu claros sinais de que sua gestão não seria caracterizada por clientelismo e assistencialismo, mas por políticas de valorização do patrimônio histórico e natural de Mauá. Terceiro a abertura de um espaço de reflexão, de lazer e de reunião de amigos e familiares servia como opção de liberdade de expressão em um período em que o Brasil era vítima das atrocidades e cerceamentos promovidos pela Ditadura Militar, principalmente pelos efeitos do Ato Institucional nº5.

Quarenta anos após a inauguração do Parque da Gruta Santa Luzia pouco ou quase nada tem sido feito pela manutenção desse patrimônio histórico e natural, que é parte da constituição da memória de centenas de mauenses que por lá passaram ao longo de sua história. Além da quase inexistência de opções de lazer no parque, da falta de segurança e de uma completa subutilização da Área de Preservação Ambiental (APA), resquícios da Pedreira Santa Luzia – como a britadeira – estão em situação de completo esquecimento. Além do mais, a antiga sede de administração da pedreira é de uso exclusivo da Secretaria de Serviços Urbanos e da Secretaria de Meio Ambiente, sendo proibido o acesso aos munícipes. Ao mesmo tempo, não há qualquer referência à história do parque, seja por meio de placas ou de um espaço reservado à memória local.

Poucas pessoas que circulam diariamente pelo parque conhecem a história do local, e não há qualquer demonstração da prefeitura no sentido de compartilhar a história com os municípes. Não somente a história material do parque é desconhecida, como também não há qualquer referência à história imaterial do parque, como os vários relatos de “cura” e de contos que circulam por frequentadores mais antigos da Gruta. Produzido pelas Oficinas Kinoforum de Realização Audiovisual, o curta-metragem Contos da Gruta (2008) faz um pequeno apanhado da história imaterial do Parque da Gruta. Apesar de importante, a iniciativa das Oficinas Kinoforum é pequena dada a grande quantidade de histórias e estórias que envolvem o primeiro parque público de Mauá. O livreto Viva Mauá (2014), edição comemorativa do aniversário de 60 anos do município, faz uma breve e discreta referência ao Parque da Gruta Santa Luzia. Pouco.

Pelo tamanho e importância do Parque da Gruta é indispensável que a prefeitura dê maior atenção a esse espaço, principalmente pelo o fato de que no local esta localizada a nascente do Rio Tamanduateí, há resquícios da Pedreira Santa Luzia (a exemplo da britadeira e da sede-administrativa), e uma das quatro grutas existentes no ABCD. O investimento de R$ 180 mil na “revitalização” do espaço (proveniente de uma verba de R$ 230 mil de compensação ambiental da CFII Logística LTDA) é pouco frente às inúmeras necessidades de disponibilização de lazer e cultura no parque. Há projetos interessantes que poderiam ser emplementados no parque, como a instalação de espaços de leitura (a exemplo do que existe no Parque da Água Branca), construção de uma área coberta para exposições e aulas de dança, instalação de uma lanchonete ou quiosques próximos à entrada do parque que, além de proporcionar opções de refeição no interior do parque, seria uma fonte de verba vital à manutenção do Parque da Gruta.

Algo igualmente importante é a abertura da área hoje restrita aos munícipes. No local há a antiga sede da Pedreira Santa Luzia, o viveiro municipal e um lago de grande extensão. A abertura do espaço é de fundamental importância porque permitiria a ampliação do parque e a instalação de um espaço de memória (museu). Salas de exposições e de atividades lúdicas contribuiriam com a diversidade de opções de entretenimento, hoje escassas. O espaço administrado pela SSU e pela Secretaria de Meio Ambiente seria, dessa forma, integrado à totalidade do parque, interligando a via de acesso aos lagos. A instalação de um museu no local possibilitaria ao visitante estabelecer uma ponte com o passado do parque. Imagens, textos, vídeos, relatos, exposição de ferramentas utilizadas pelos funcionários da pedreira fariam essa ponte.

Conselho Gestor dos Parques Municipais

Resultado de uma conversa com o vereador Edgard Grecco foi apresentado (na sessão de 18 de agosto de 2015) a indicação número 6.381 / 15, que solicita a instituição de um modelo de cogestão adotado pela prefeitura de São Paulo, que é o Conselho Gestor de Parques Municipais. Segundo a indicação, a medida se faz necessária a “[…] a participação popular no planejamento, gerenciamento e fiscalização das atividades que ocorrem nos parques”, e que “[…] a criação do referido conselho tem como objetivo fomentar a participação da comunidade na discussão das políticas públicas com enfoque nas questões socioambientais e assim contribuir para a elaboração de planos de desenvolvimento sustentável em âmbito municipal”. Agora é cobrar sua implementação.

johnny

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