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Publicado às 11h55 — 29 de setembro de 2017
Entrevista exclusiva com o Prof. Dr. Saulo César Paulino e Silva

A coluna tem o privilégio de apresentar uma entrevista exclusiva com o Prof. Dr. Saulo César Paulino e Silva, docente da Faculdade Sumaré, autor de inúmeros livros e de uma imensa trajetória acadêmica (que aqui vem extremamente resumida).

Por Sérgio Simka | Portal Mauá e Região

livroAtualmente, o professor é pós-doutorando na Universidade de São Paulo, onde desenvolve o projeto “Audiodescrição como acessibilidade ao deficiente visual”. É doutor em Linguística Aplicada (2005), pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e mestre em Língua Portuguesa também pela PUC-SP (1996).

É integrante do grupo de estudos “Linguagem e Cognição”, liderado pela Profa. Dra. Maria Célia Lima-Hernandes, na Universidade de São Paulo. Em 2015, passou a integrar o Comitê Científico Internacional do “II Colóquio Internacional Franco-latino-americano de investigación en discapacidad”, organizado pela Universidad de los Lagos (Chile) e L’Ecole de Hautes Etudes en Sciences Sociales (França).

FALE-NOS SOBRE SEUS LIVROS.
Ao longo de minha carreira acadêmica, me foi possível transitar entre diferentes contextos, o que se refletiu em obras com enfoques aparentemente distintos, porém, relacionados ao conjunto de experiências profissionais.

Tenho, até o momento, publicado 05 livros, discriminados a seguir.

2009 – Percebendo o ser. Editora LCTE, São Paulo. Versão simplificada de minha tese de doutorado. Nesta obra, procurei sintetizar, por meio de uma linguagem mais simplificada, a construção das identidades sociais dos alunos universitários com deficiência visual, durante a leitura e a interpretação de textos.

2012 – Da iniciação científica ao doutorado. Quártica, Rio de Janeiro. Uma breve discussão a respeito da importância da Iniciação Científica nos cursos de graduação, tornando-se ferramenta essencial para o incentivo ao desenvolvimento de uma carreira acadêmica.

2013 – Redigindo textos empresariais na era digital. Intersaberes, Curitiba. Uma obra voltada para a redação de textos empresariais em um mundo tecnológico, onde a informação deve ser objetiva, sem, no entanto, haver perda da coerência. Resultado de minha experiência por mais de 12 anos como professor de Língua Portuguesa nos cursos de Secretariado, Administração e Ciências Contábeis na FECAP.

2014 – Inclusão educacional: uma perspectiva educacional ibero-americana. Quártica, Rio de Janeiro. Esta obra é o resultado da Coordenação à frente do grupo de pesquisa Ibero-americano, formado por estudiosos do tema de países como: Argentina, Brasil, Equador e Espanha nos anos de 2012 e 2013. O principal objetivo foi, por meio da visão de diferentes pesquisadores, conhecer o tema da
inclusão nesses países.

2015 – Leitura e subjetividade: construindo os sentidos do texto poético. Novas Edições Acadêmicas, Alemanha. Esta obra é a publicação revista de nossa dissertação e tem como principal objetivo lançar uma reflexão a respeito da construção de sentido de textos poéticos a partir das teorias desenvolvidas por Umberto Eco a respeito dos vazios textuais, e do cognitivismo, nos estudos desenvolvidos por T.Van Dijk.

COMO ANALISA A QUESTÃO DA LEITURA NO PAÍS?
Antes de dissertar sobre o tema leitura, é preciso saber sobre qual “leitura” se está falando. Primeiramente, é importante ter claro que o conceito de leitura é amplo e pode ser abordado sob diferentes matizes como, por exemplo, do ponto de vista da educação, da linguística, da semiótica, entre outras áreas do conhecimento. Dada a amplitude de perspectivas, farei um breve recorte, observando a leitura a partir do conceito de letramento, que, de certa maneira, inova e renova o olhar sobre a controvertida ideia do ato de ler.

Na visão educacional tradicional, ler é decifrar o código, realizando o reconhecimento das letras, que formam sílabas e, por sua vez, as palavras. Um movimento mecanicista, baseado na repetição e na formalidade da língua padrão.

No entanto, é notório que essa estratégia pedagógica tem se mostrado ineficaz, recaindo sobre a escola, como é concebida, a responsabilidade pelo distanciamento entre o leitor (aluno) e a sua prática de leitura. Seria muito cômodo, aliás, como se vem fazendo há décadas, culpar o aluno por não corresponder a uma exigência institucional que está muito distante de sua realidade. Nessa perspectiva, parafraseando Magda Soares, professora emérita da Universidade Federal de Minas Gerais, acentua-se uma tendência de frustração desse aluno que acarreta no abandono dos bancos escolares, resultando no fenômeno conhecido como fracasso escolar.

Por outro lado, a ideia de que a leitura é uma prática social proporciona trazer à tona a necessidade de se repensar o ensino das práticas de leitura nas escolas brasileiras. Particularmente, por mais paradoxal que possa parecer, em um primeiro momento, é preciso formar um professor que aprenda e goste de ler, tendo no letramento uma diretriz eficaz que poderá levar o seu aluno a descobrir o prazer no mundo da leitura e consequentemente da escrita, em um segundo momento.

Repensar as práticas pedagógicas de leitura, tendo como base o conceito de letramento, é colocar em xeque uma visão conservadora imposta por determinadas classes sociais que, secularmente, exerceram uma espécie de “monopólio do conhecimento”, privando, assim, o povo de conquistar sua autonomia.

Se por um lado, no atual momento, a falácia da “Escola sem Partido” ganha espaço em alguns meios de comunicação, por outro, leitores, verdadeiramente leitores, conseguem ler e interpretar nas entrelinhas a intencionalidade malévola dessas ideias.

Como dizia Oswald de Andrade, em seu Manifesto Pau-Brasil:

“É preciso ver com olhos livres”.

UMA QUESTÃO QUE NÃO FIZ E QUE GOSTARIA DE RESPONDER
Para responder a uma questão que não foi feita, mas refeita a partir do olhar do entrevistado, gostaria de partir do seguinte questionamento:

Estamos em um beco sem saída?

Não sei se conseguiria responder a essa pergunta sem esbarrar nos últimos acontecimentos da vida nacional.

Observo com grande perplexidade o que vem ocorrendo em nosso país e que, fatalmente, se reflete na vida escolar.

Como exercer a prática em sala de aula, se os instrumentos com os quais trabalhamos estão, todos os dias, sendo jogados à margem da história. Por exemplo, se cobramos de nossos alunos postura no momento da realização de uma prova, repreendendo-os por tentarem “colar”, por outro, esses mesmos alunos observam todos os dias, nos noticiários, práticas extremamente reprováveis daqueles que, em tese, também os representam e representam aquele professor.

Diante do atual contexto, o próprio significado da palavra “escola” parece perder o sentido.
Mais uma vez, retomo a pergunta inicial: estamos em um beco sem saída?

A escola deve ser o ponto de partida e não de chegada. O conhecimento e o aprendizado são as chaves para transformar nossa sociedade, levando o Brasil a um desenvolvimento verdadeiramente humano e sustentável.

O momento é difícil, porém acredito que a valorização da educação e dos profissionais que nela atuam possa se desenhar como as soluções a médio e longo prazos.

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